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Construindo Produtos além do óbvio com aplicação da 5ª Disciplina

Publicado em 18 out 2017 por Erivelton Batista na categoria Blog, Dicas 18-10

Em 1997 a revista Harvard Business Review identificou a “A Quinta Disciplina” como um dos livros seminais mais influentes, inovadores dos últimos 75 anos, ok, li o livro mas não nesta época… em 97 eu tinha 13 e estava mais preocupado em jogar War Craft II, fazer um sistema de frotas de veículos para a software-house do meu velho, e criar um jogo de truco no estilo Computador vs Humano em Delphi, que tinha uma classe de 2 mil linhas cheias de IFs e Elses chamada “Brain” mais uns componentes de baralho feitos por um russo que não tinha o que fazer no inverno chamado Sergey.

 

As 5 Disciplinas

 

As 5 Disciplinas do livro se adaptam bem a como pensamos em produtos:

 

1 – Maestria Pessoal… ou… Maestria do Produto.

 

Aplicada em produtos, esta é a disciplina que clarifica continuamente e aprofunda a visão do produto, de focar as energias do produto, desenvolver paciência de não ficar ansioso para ir rápido demais na direção errada, rodar e validar pequenos experimentos, e ver a realidade objetivamente.

 

2 – Modelos Mentais.

 

São pressupostos profundamente arraigados sobre o produto, empresa ou cliente, generalizações, ou até mesmo imagens de como entendemos o mundo e como agimos. Acredito que é mexendo aqui que geramos as maiores disrupções em produtos e mercados. O mundo muda, e revendo suas crenças e de seus clientes, enxergamos novos pontos de vistas e oportunidades ainda não pensados.

 

Quando utiliza-se como ponto de partida o problema que o produto resolve, ficamos cegos as outras oportunidades, um bom ponto de partida é começar por aqui, na revisão dos modelos mentais, propósito e valor do ponto de vista do cliente.

 

3 – Construindo uma Visão Compartilhada.

 

O Steve Jobs era bom nessa disciplina, é a pratica de escavar imagens de como será o futuro que promove compromisso genuíno, que empolga e gera motivação intrínseca nas pessoas em participar de algo maior que elas, em vez de conformidade e pensamento de execução de trabalhado das 8h as 18h, onde a motivação é apenas o salário ou medo de ser demitido na crise.

 

4 – Aprendizado do Time.

 

Começa com diálogos e comunicação, entre o time e também com outras áreas, clientes setores, é a capacidade de membros do time de suspender pressupostos e crenças antigas para entrarem em pensamentos genuínos em conjunto, o pensamento produzido de um grupo unido pode ver de forma mais abrangente o quadro atual ir além do que o pensamento individual.

 

5 – Pensamento Sistêmico (Systems Thinking).

 

Esta é a 5ª Disciplina que integra todas as quatro, como uma disciplina influencia a outra, como as coisas na organização e fora dela são interdependentes, uma visão holística do mundo, empresa, produto e cliente, como ele se integra ao ambiente/mercado que está inserido. Aqui podemos rever o modelo de negócios de um produto que também pode gerar inovação e disrupção no mercado.

 

O papel do Product Owner está diretamente ligado ao pensamento sistêmico, possui desde a visão de alto nível, está envolvido em como o produto é construído, outras partes que possui interdependências, não tem ninguém melhor posicionado ou diretamente responsável por entender todo o “eco-sistema” do que ele.

 

Pra quem é nerd e gosta do seriado Silicon Valey, tem um episódio que o gênio investidor Peter Gregory dá uma demonstração de como utiliza o pensamento sistêmico em seu processo de investimentos. Ele vê que o setor de hamburgers está indo bem, e demanda muita produção de gergelim que vai sob o pão, entre os países que plantam a semente de gergelim, ele nota que o preço da Indonésia está abaixo dos outros e conclui que tem uma oportunidade de investimento.

 

 

Deficiências de Aprendizado

 

 

Além das 5 disciplinas também temos algumas deficiências na forma de pensar sobre o produto que podem prejudicar e atrasar a sua evolução.

 

1 – “Eu sou o meu cargo” .. ou “O meu produto é apenas as suas funcionalidades”

 

Este pensamento é como uma âncora que impede o produto de evoluir, pensar sobre o problema que ele resolve e explorar novas formas de resolvê-lo. É bem comum relacionar um produto a uma única funcionalidade ou sistema, mas quando abandonamos esta forma de pensar, percebemos que existe um novo universo de oportunidades para explorar além das soluções mais óbvias que o produto oferece.

 

Quando o produto foca apenas no que ele faz, ele possui pouco senso de responsabilidade pelos resultados produzidos em toda cadeia de valor que atua, não enxergando suas ações além das fronteiras das funcionalidades atua.

 

Foi este modelo de pensamento que impediu as cooperativas de taxi de criarem seus próprios aplicativos de taxi, e não foi por falta de alguém oferecer a oportunidade. O mundo muda, se o produto ficar preso as suas funcionalidades corre o risco de mais cedo ou mais tarde ficar ultrapassado.

 

2 – “O inimigo está lá fora”

 

Quando focamos apenas nas fronteiras de funcionalidades dos produtos, e os seus concorrentes começam a inovar além destas fronteiras, eles começam a te machucar. Mas a causa raiz do problema problema não são os concorrentes, não está la fora, está no item acima, de ter senso de responsabilidade além de suas fronteiras.

 

Novamente vemos este padrão de pensamento em Taxistas contra Uber, redes de Hotéis contra AirBnb, fábricas de máquina de escrever contra computadores :)

 

3 – A ilusão de estar no controle

 

Muito frequentemente a “proatividade” está mais para reatividade disfarçada. Quando um produto começa lutar contra seus concorrentes com a mentalidade “O inimigo lá fora”, estamos apenas reagindo.

 

4 – Fixação nos eventos (como problemas urgentes que surgem) e 5 – A parábola do sapo que morre cozinhado

 

O que deve manter um produto vivo não é apenas quando surgem necessidades urgentes de seus usuários, não será sustentável evoluir um produto que seus usuários adoram com pensamentos de curto prazo orientados a eventos ocorridos.

 

A evolução não ocorre de um evento inesperado, ela vem de um processo lento e gradual. É papel da organização e responsáveis do produto perceberem estas mudanças para agirem de forma antecipada em vez de reativa.

 

6 – A ilusão de aprender apenas com as experiências

 

Nós nunca experimentamos diretamente as consequências de nossas decisões mais importantes. O mundo, o mercado e as pessoas são complexos, em complexidade não é possível ter uma correlação exata das ações com as reações. Isso quer dizer que por mais que você crie métricas e acompanhe tudo, ainda terá várias coisas que o produto impacta que ainda passarão despercebidas, ter consciência disto, nos deixa mais atentos a explorar novas oportunidades além das hipóteses de experimentos realizados.

 

 

Aplicando o Modelo de Iceberg em Produtos

 

 

Iceberg Nível 1 (Eventos): Deixe para trás o modo reativo

 

Se quisermos influenciar em um nível mais profundo, causar mais impacto, temos que deixar de ser reativos, parar de pensar apenas nos níveis mais superficiais e nos levar a uma compreensão mais profunda dos problemas e do que somos capazes.

 

Essencialmente, pare de culpar os outros pelas suas situações, e se veja poderoso o suficiente para fazer a diferença no eco-sistema em que o produto atua.

Neste nível está o mapeamento das funcionalidades e problemas mais óbvios que o produto possui que até seus concorrentes conhecem.

 

Iceberg Nível 2 (Tendências): Triangulação

 

Busque novas visões das tendências que estão ocorrendo. Uma maneira de fazer isto é através dos feedbacks loops juntamente com uma mente atenta na melhoria contínua.

Primeiro é claro, obtenha vantagem de todos os dados que a tecnologias de analytics puderem lhe dar. Mas também implementar loops de feedback em outras partes da organização como suporte ao cliente, treinamento, finanças, jurídico e também cruzar com dados de outros produtos.

Descubra o que está acontecendo. Onde estão as mudanças? O que podemos prever? Quais são as melhores praticas e se elas ainda funcionam? Existem processos ainda melhores? Onde estão as falhas? Isto lhe dará ideias de processos de outras pessoas envolvidas, e como melhorar a coordenação entre eles, e se afastar do pensamento de silos que se vem como concorrentes para um pensamento de colaboração.

 

Iceberg Nível 3 (Estrutura): Estabeleça um Processo de Produto bem definido e defina as metas do Produto

 

Duas das maneiras mais fortes de estabelecer uma estrutura que suporte o seu produto são: Um processo coerente de desenvolvimento do produto & criação de metas claras do produto.

 

Se você ainda não tem um processo bem definido de criação do produto, escolha um. Eu sou muito fã de Customer Discovery, Lean Startup, Métodos Ágeis, Discover to Deliver, Google Design Sprints. Você precisa aprender, praticar e adaptar o método que funciona melhor para você; walk the talk, apoia-lo, obtenha o patrocínio, ensine-o na organização e evangelize.

 

Em segundo lugar, diz se que os sistemas irão se organizar em torno das metas estabelecidas, quaisquer que sejam elas, então você precisa estar conduzindo e acompanhando os objetivos o máximo possível. Para isto você precisa:

 

  • Estabelecer metas claras de produto que as pessoas possam sentir motivadas para alcançar. ROI, Roadmaps, MVP, Personas, listas de problemas, histórias de usuário com critérios de aceite, todos são partes dos objetivos do produto que impactam o processo de desenvolvimento. Tenha certeza que você está incluindo as opiniões de stakeholders quando estabelecer estes objetivos, assim todas as partes terão um sentimento de dono para alcança-los.

 

  • Compreender objetivos concorrentes. Por exemplo um produto pode ser composto de desenvolvedores de times diferentes e gerentes diferentes que tem metas pessoais estabelecidas para seus times. Você conhece estas metas? Como suas metas de produto podem ser adaptadas para apoiar estes objetivos? Outros produtos também possuem objetivos – como você pode trabalhar com outros Product Owners para definir um conjunto de metas através de um portfolio que irá trazer o máximo de valor para a organização?

 

Iceberg Nível 4 (Modelos Mentais): Visão do Produto, Paixão, Comprometimento

 

 

As ferramentas mais poderosas são a sua Visão do Produto, juntamente com a sua paixão e compromisso com esta visão. Existem muitas informações e técnicas sobre como criar a visão do produto, então não vou explicar este assunto aqui. Mas espero que você possa ver porque é tão importante ter uma, porque ela estabelece o modelo mental da equipe de produto, e como a organização enxerga o produto.

 

E lembre-se que não há uma única pessoa na organização que vai ter mais paixão ou compromisso com a sua visão do que você (Product Owner), por isto é importante você definir a barra alta, muito alta!

 

Conectando as coisas

 

Finalmente, é interessante observar no Iceberg como é a conexão e influência entre as camadas. O Modelo Mental com a visão e valores do produto irão impactar nos objetivos e estrutura, que por sua vez nas métricas e padrões de resultados, e por ultimo nas funcionalidades. Interessante que normalmente caímos na armadilha de começar pelo topo do iceberg, nas funcionalidades e eventos(problemas), o que nos aprisiona no modo reativo. Para sair do modo reativo pode começar a reestruturar seu produto começando na camada de baixo do ice berb e repensando as camadas superiores. Na cultura Ágil fala-se muito sobre Adaptabilidade, quando possuímos uma visão e objetivos claros, temos flexibilidade em como pretendemos alcançar esta visão, é ai que está a beleza do processo, assim utilizamos esta adaptabilidade para construir produtos e organizações de forma mais ágil indo além dos problemas da superfície, além do planejado vs executado…além do Óbvio :)

 

 

Fonte:  https://goo.gl/AYiv2s

 

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